quinta-feira, março 11, 2010

Das incertezas (metamorfoses)

Quando eu optei por vir embora, eu não sabia. Eu não fazia nem ideia do que eu ia ter que enfrentar, do que eu ia aprender, do que eu ia sentir.

Quando optei por vir embora, reneguei, refuguei, deixei tudo e todos que eu tinha para trás. Eu não fazia ideia do isso queria dizer.

Quando optei por me experimentar, queria transpor, transcender limites. Eu não tinha noção de que as vezes nem a gente sabe as fronteiras e as delimitações que temos.

Quando eu cheguei aqui, tudo o que eu queria era voltar.

Antes de vir, ouvi minha mãe dizer à minha vó que eu me relacionava com facilidade, que agregava pessoas, fazia amizades fácil....

Passei meses sem fazer amigos, sem conhecer gente nova, sem querer me relacionar. Eu passava tanto frio, que andava congelada.

Parece rídiculo, mas foi aí que aquele medo que habita tantas pessoas, aquele de ficar sozinho, da tal solidão, começava a fazer sentido.

Aí eu me apeguei muito àqueles que eu já conhecia aqui.

Aí, eu vi que eles não eram meus.

Aí eu quis, mais ainda, quem eu já tinha antes.

Aí eu me senti mais e mais sozinha.

Quando eu me deparei com as minha limitações eu me frustrei. Quando eu me deparei com as limitações do lugar eu me senti sufocada.  Quando eu identifiquei as limitações do meu fazer, eu me desesperei.

Aí eu pensei em largar tudo, sair correndo. Não foi uma, nem duas, nem três vezes... foram milhares de vezes. Hora tinha rumo, hora totalmente sem rumo, sem norte, sem destino.

Então teve um ponto final. E depois dele veio mais um e foram dois pontos finais. E muito alento à minha alma, e muita paz ao coração.

Na pausa dramática de alívio pensei em novas possibilidades. Tinha milhares de cartas na manga. Do Iapoque ao Chuí, mas nenhuma, nenhumazinha aqui pertinho.

Quando eu comecei a fazer a mala para chutar baldes e sair de novo por aí me lançando ao léu, testando e renegando tudo que eu tinha construído até aqui, eu fui vaiada.

Pela primeira vez na vida o barulho das vaias me fez parar, pensar e optar por ouvir o que a plateia tinha a dizer e, por que não acatar a vontade de tais?

Foi a primeira vez que eu não me arrisquei por mim, que eu não decidi, que eu reneguei minhas vontades para ouvir as vontades dos outros.

Do meu instante de suspiro mórbido das esperanças a vida não parou, pulou depressa para outro momento e eu me projetei, me lancei a um mar peixes grandes e daí foi pior ainda... porque dessa vez eu gostei, mas não gostaram de mim e...

E eu fechei os olhos, e rezei tal qual criança que pede para o papai do céu por um dia de sol.

Foi quando eu tive dias e dias de tempestade. Foi quando doses cavalares de incredulidade se propuseram a conduzir meu sapateado e um medo gigante começou a gritar no meu ouvido.

Eu me fiz de surda, com me fiz tantas outras vezes e continuei o que estava fazendo. Mais ou menos como se fosse programada para tal.

Me desconectei e deixei o vento me escabelar e descabelar.

A roda viva me pôs sentada...a olhar os calouros que pátio, enquanto eu tomava meu café preto com cara de caloura e ares de veterana no saguão de um centro acadêmico.

Foi quando meu coração voltou a bater e o último suspiro quis ser só ser o primeiro dos seduzidos que ainda haveriam de ver.

Aos pouquinhos meu coração se acomodou. Ainda tem o que desespere. Mas hoje sentada no balanço da praça do lado da casa nova, percebi a vida nova, os amores, os melindres, os segredos, os gostos e cheiros novos e que já não traziam mais a culpa do que ficou para traz.

Acho que nasceu mais uma pata da barata. E que sendo cada vez mais barata, não se encaixaria no ambiente em que lhe tinha gerado. Foi quando eu entendi o drama de Gregor e ao mesmo tempo me senti confortável com a nova couraça.

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please, one moment